Música Interior

A madrugada pousa fresca e monótona sobre o respirar do vento que inspira vida à noite.
Insone, recordo ocasiões que nunca aconteceram e que, no entanto, desfilam na minha lembrança, tão vivas quanto outras reais que, talvez, jamais se repitam.
É que costumo brincar com o tempo e, na pintura desses factos ocorridos no passado, matizo outros jamais vividos para compor um presente mais colorido, enquanto aguardo o inesperado que o futuro me reserva.
Divago no silêncio frio e não estou só: a música é a minha companhia.
No momento, ouço - Chico e Jobim - com um quarteto de cordas... e sinto-me levitar. Nada pode descrever com precisão a lindeza da voz em consonância com os murmúrios quase humanos dos violinos e do violoncello. Ah! Deus existe!
Enquanto isso, o céu violeta faz a noite cismar com o dia. Os meus olhos começam a pesar sonolentos. Sei que, ao adormecer, vou sonhar com essas cordas todas - vocais e instrumentais - conversando entre si num diálogo pleno de harmonia que se evaporará de mim, musicalmente, pelo céu do amanhecer.