sexta-feira, janeiro 26, 2007

Podia ser


Não acredito que eu possa abandonar assim o jogo de acreditar. Ironizo. Como se o precipício fosse um lugar cheio de operários da construção civil e eu pudesse dizer, enfadada, que não há público para a minha morte.
Talvez fosse um olhar apanhado por acaso no acaso do dia. Talvez nem fosse o olhar, mas o reflexo dos faróis numa memória qualquer. Talvez fosse apenas a vontade de vos dizer: ainda vivo.
Não sei se é o corpo cansado ou apenas puro esquecimento. Ou, ainda antes disso, um medo qualquer de qualquer coisa. Podia ser a morte ou apenas a simples palavra. Ou, antes disso, uma qualquer memória. Podia ser, se eu soubesse, podia ser.
Seria necessário escrever, se houvessem palavras. Ou se os sussurros que ouço não fossem os ramos das árvores passeando-se pela noite. Poderia ser a noite, ou um vazio profundo. Ou, ainda antes de mim, uma criança que chora.
Podia ser que ela vos dissesse: podia ser.

2 Comments:

Blogger paulo said...

Ao reino do possível falta, sempre, o império do agir, a realidade do provável, a coragem do simplesmente tentar. E há os abismos, mas há também as pontes e os miradouros, e o alongar a vista sem dar o passo. Xi.

domingo, janeiro 28, 2007  
Blogger Um Poema said...

"Podia ser" sim... e até talvez venha a ser, quem sabe?...
Um abraço

terça-feira, janeiro 30, 2007  

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